O Ditadorzinho de Araque e o Medo da Palavra
Se a sua primeira reação a uma ideia que o contraria é o desejo de silenciá-la, de proibir sua circulação e de punir quem a profere, você precisa entender uma verdade incômoda: você não é um defensor da verdade ou da justiça. Você é um ditadorzinho de araque. Essa pulsão pela censura, seja no debate político, na investigação acadêmica ou na simples opinião pessoal, não é um zelo pela retidão, mas o mais puro sintoma de uma mentalidade tirânica, uma insegurança intelectual que os grandes pensadores da história já diagnosticaram e alertaram contra.
A figura que melhor desmonta essa pretensão é John Stuart Mill. Em sua obra seminal, Sobre a Liberdade, Mill argumenta com uma clareza demolidora que a censura é um roubo contra toda a humanidade. Ele nos apresenta três cenários devastadores para o censor. Primeiro, a opinião que se quer calar pode ser a verdadeira. Ao silenciá-la, o censor presume sua própria infalibilidade, uma arrogância que a história repetidamente desmentiu. Segundo, a opinião pode ser falsa. Mesmo nesse caso, afirma Mill, seu confronto com a verdade é essencial. Sem o desafio constante da oposição, a verdade se torna um “dogma morto”, uma frase decorada sem compreensão vital, e não uma “verdade viva”. Por fim, e mais comum, as duas opiniões — a sua e a do outro — podem conter parcelas da verdade. Apenas na colisão das ideias adversas existe a chance de se chegar a uma verdade mais completa. O “ditadorzinho de araque” não quer a verdade completa; ele quer a paz de seu próprio monólogo.
Essa defesa da livre troca de ideias ecoa o espírito de Voltaire, a quem se atribui a frase lapidar: “Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo”. Para Voltaire, a luta contra a intolerância era a luta contra a tirania da mente. O desejo de censurar nasce do fanatismo, da crença de que seu ponto de vista é tão sagrado que qualquer contestação é uma heresia que deve ser purgada. É a mesma lógica que acendeu as fogueiras da Inquisição e que construiu os gulags. A escala pode ser diferente, mas a semente é a mesma: a recusa em aceitar a legitimidade da existência do outro pensante.
Remontando aos alicerces da filosofia ocidental, encontramos em Platão o exemplo trágico de onde leva a intolerância à dissidência. Seu mestre, Sócrates, foi condenado à morte não por crimes de sangue, mas por “corromper a juventude” e “não crer nos deuses da cidade” — em essência, por ensinar os jovens a questionar e por desafiar as certezas estabelecidas. Sócrates era o “moscardo” de Atenas, o inseto que ferroava o cavalo sonolento do Estado para mantê-lo desperto e consciente. Aquele que pede a censura quer matar o moscardo para que o cavalo possa dormir em paz, em sua estagnação confortável, rumo ao precipício.
A própria estrutura de uma república saudável, como teorizada por Montesquieu em O Espírito das Leis, baseia-se na moderação e no equilíbrio de poderes para evitar o despotismo. O déspota, por natureza, não pode tolerar vozes independentes. Ele precisa do silêncio obsequioso de seus súditos. O impulso de censurar o contraditório é, portanto, um impulso despótico em microescala. É a tentativa de criar em seu pequeno círculo de influência — seja uma rede social, uma sala de aula ou um debate político — um ambiente de poder absoluto, onde sua palavra é a lei e a discordância é crime.
Portanto, da próxima vez que sentir o ímpeto de exigir que uma opinião, um estudo ou uma visão de mundo diferente da sua seja removida, calada ou punida, faça uma pausa. Reconheça que este desejo não vem da força, mas da fraqueza. Não é um ato de defesa da verdade, mas um ataque à própria possibilidade de encontrá-la. É o medo da complexidade, a aversão ao debate e, no fundo, a confissão de que seus próprios argumentos talvez não sejam fortes o suficiente para sobreviver ao ar livre. É o reflexo inconfundível do tirano que, por sorte, não tem um reino para governar, restando-lhe apenas a postura de um ditadorzinho de araque.


