Quatro ilusões econômicas que ainda dominam o debate brasileiro
Em tempos de inflação persistente, expansão dos gastos públicos e promessas recorrentes de prosperidade financiada por decretos, talvez seja oportuno revisitar algumas crenças populares sobre dinheiro e economia que continuam influenciando o debate nacional.
São ideias repetidas com tanta frequência que acabam sendo tratadas como verdades incontestáveis. Contudo, quando analisadas sob uma lente econômica mais rigorosa, revelam-se frágeis, contraditórias ou simplesmente equivocadas.
Poucas ideias são tão sedutoras quanto essa.
A lógica parece simples: se o governo injeta dinheiro na economia, gera empregos, aquece o comércio e promove crescimento. O problema é que o governo não possui uma árvore de dinheiro escondida em Brasília.
Todo gasto público precisa vir de algum lugar: impostos, endividamento ou emissão monetária.
Adam Smith já alertava, em A Riqueza das Nações, que a prosperidade não nasce do consumo financiado pelo Estado, mas da capacidade produtiva dos indivíduos livres para empreender, poupar e investir.
Quando o setor público amplia gastos sem correspondente aumento de produtividade, ocorre apenas uma transferência de recursos da sociedade para a máquina estatal. Em alguns casos, a conta chega na forma de impostos. Em outros, chega silenciosamente por meio da inflação.
A diferença é que a inflação possui uma característica admirável do ponto de vista político: permite arrecadar sem enviar boleto. Se riqueza pudesse ser criada pela simples impressão de papel ou pela digitação de números em computadores do Banco Central, a humanidade teria resolvido seus problemas econômicos há séculos.
O dinheiro não é riqueza. Dinheiro é apenas um instrumento que facilita trocas. A riqueza verdadeira está nos bens e serviços produzidos: alimentos, moradias, máquinas, conhecimento, tecnologia e infraestrutura.
Hans-Hermann Hoppe observou que aumentar a quantidade de moeda não cria recursos reais. Apenas altera sua distribuição dentro da sociedade, beneficiando quem recebe o dinheiro novo primeiro e prejudicando aqueles que o recebem por último.
Na prática, quando a expansão monetária ocorre, alguns setores comemoram inicialmente. Depois, quando os preços sobem, descobre-se que os salários não acompanharam o entusiasmo das impressoras. Curiosamente, esse fenômeno costuma ser chamado de “choque externo”, “especulação” ou qualquer outra expressão suficientemente vaga para evitar mencionar a causa original. Essa talvez seja uma das explicações mais populares quando os preços sobem.
Segundo essa narrativa, empresários acordariam todas as manhãs tomados por uma irresistível vontade de aumentar preços sem motivo aparente. A realidade é menos cinematográfica. Empresários sempre tentam vender pelo maior preço possível. Fazem isso hoje, fizeram há dez anos e farão daqui a vinte. O que determina se conseguem ou não elevar preços de forma generalizada é a quantidade de moeda circulando na economia em relação à produção disponível. Se bastasse a vontade dos empresários para gerar inflação, os preços dobrariam toda segunda-feira.
A inflação persistente e disseminada é um fenômeno monetário. Essa conclusão foi defendida por economistas de diferentes escolas, incluindo Milton Friedman, embora os austríacos tenham aprofundado significativamente a compreensão dos seus efeitos distributivos.
Transferir toda a responsabilidade para supermercados, postos de combustíveis ou produtores rurais pode ser politicamente conveniente, mas está longe de ser uma explicação econômica satisfatória. Poucas palavras provocam tanto temor em formuladores de políticas públicas quanto “deflação”. Frequentemente ouvimos que preços menores levariam consumidores a parar de comprar e empresas a parar de investir.
A experiência histórica mostra algo diferente.
Durante boa parte do século XIX, diversas economias experimentaram períodos de queda gradual de preços acompanhados por forte crescimento econômico. Quando os preços caem porque a produtividade aumenta, a sociedade está ficando mais rica. Computadores, televisores, celulares e inúmeros produtos tecnológicos tornam-se mais baratos ao longo do tempo justamente porque os processos produtivos evoluem.
Ninguém deixa de comprar um smartphone porque sabe que ele será mais barato daqui a dois anos. Pelo contrário, as pessoas continuam consumindo, investindo e produzindo porque possuem necessidades presentes e expectativas futuras. O medo irracional da deflação frequentemente serve de justificativa para políticas de expansão monetária que, ironicamente, acabam corroendo o poder de compra da população.
A economia possui uma característica desconfortável: ela não se curva a discursos políticos.
Leis econômicas funcionam independentemente da ideologia do governante da vez, da coloração partidária ou da qualidade das campanhas publicitárias oficiais. Adam Smith ensinou que a prosperidade surge da liberdade econômica e da divisão do trabalho. Hoppe recorda que não existe criação mágica de riqueza por meio da expansão monetária, e a experiência histórica demonstra repetidamente que países enriquecem quando produzem mais, inovam mais e poupam mais — não quando simplesmente gastam mais.
Talvez o maior desafio do debate econômico brasileiro não seja a falta de informações. Talvez seja a persistência em acreditar que efeitos podem existir sem causas, que riqueza pode surgir sem produção e que déficits podem ser permanentes sem consequências.
Mas, nesse caso, estaríamos entrando no campo da fé.
E fé, embora essencial para muitas coisas, raramente fecha contas públicas.








