A realidade como inimiga: por que os progressistas não largam a tesoura da censura
Vivemos um tempo curioso: todos falam em liberdade, mas poucos a suportam. É uma liberdade condicional, que funciona bem desde que o outro concorde. Quando surge a divergência, especialmente aquela que toca em tabus modernos — como identidade de gênero, liberdade econômica, educação domiciliar, segurança pública —, o debate vira ofensa, a opinião vira crime, e a resposta vira censura.
Não se trata mais de discordar civilizadamente. Trata-se de calar. Cancelar. Derrubar. Silenciar. Por isso é tão certeira a análise publicada pelo Instituto Rothbard Brasil, no artigo “Progressistas são obcecados pela censura porque não suportam a realidade”. Segundo o texto, “progressistas não querem proteger o mundo da maldade. Eles querem proteger a si mesmos da realidade. Preferem viver em um mundo de ilusões ideológicas.” E aqui está o cerne da questão: não é apenas uma guerra de ideias, é uma fuga da realidade.
George Orwell já havia nos alertado, em 1984, que “a liberdade é a liberdade de dizer que dois mais dois são quatro. Se isso for concedido, tudo o mais se segue.” Hoje, dizer que dois mais dois são quatro já não é tão simples, especialmente quando quatro fere suscetibilidades identitárias ou abala certezas ideológicas. A matemática, a biologia, a economia e até a história passaram a ser maleáveis, moldadas ao gosto do patrulhamento cultural do dia. A realidade objetiva, essa pedra no sapato dos militantes de gabinete, virou uma ameaça.
O progressismo contemporâneo, especialmente sua ala mais militante e midiática, passou a tratar fatos como ofensas pessoais. Isso ocorre porque suas pautas, embora embaladas em termos nobres — justiça social, equidade, tolerância —, muitas vezes se sustentam em premissas frágeis, estatísticas distorcidas ou teorias ideológicas que não resistem ao teste da realidade empírica. Quando confrontados com dados, resultados ou efeitos colaterais indesejados de suas propostas, a reação imediata é interditar o debate, não aperfeiçoar o argumento.
É justamente aqui que a filosofia política entra com a força de um diagnóstico clínico. Karl Popper, em A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, nos lembra que a marca de sociedades autoritárias é a intolerância à crítica. Elas não erram — elas recalculam o que é certo. Não falham — reinterpretam os resultados. E quando a realidade não colabora, criam narrativas alternativas e silenciam as vozes dissonantes.
Foucault, por sua vez, vai além: ele nos mostra que toda verdade está atravessada por relações de poder. A verdade, para o progressismo atual, tornou-se uma concessão política, não uma busca racional. Quem detém o controle sobre o discurso público — seja no jornalismo, na academia, no Judiciário ou nas big techs — também molda o que pode ou não ser dito. E, consequentemente, o que pode ou não ser pensado.
Mas a censura moderna não tem a estética grosseira do século passado. Ela não prende, mas “desmonetiza”. Não tortura, mas rotula. Não proíbe, apenas “modera”. É uma censura elegante, digital, envolta em comitês de checagem e termos de uso. O silêncio agora é terceirizado — e a sociedade civil, em muitos casos, aplaude.
Esse processo, como bem aponta o artigo do Rothbard Brasil, ganha força justamente porque o progressismo não sobrevive ao debate aberto. “Eles vivem num mundo idealizado, onde desejos substituem fatos, onde sentimentos substituem lógica, onde intenções são mais importantes do que consequências.” Ou seja: qualquer ameaça a esse mundo imaginário precisa ser eliminada — e isso se faz com censura.
No entanto, há uma questão ainda mais profunda: a da verdade como fundamento da vida social. Hannah Arendt já dizia que “a liberdade de opinião é uma farsa se a informação factual não está garantida.” E se os fatos se tornam fluidos, negociáveis, manipuláveis — o que sobra é apenas o poder nu, mascarado de virtude.
Estamos, portanto, diante de um dilema civilizacional: ou defendemos o direito de dizer o que o outro não quer ouvir, ou abrimos mão do projeto iluminista que construiu o Ocidente. Liberdade de expressão não é para proteger o que é consenso — é justamente para proteger o dissenso.
A realidade pode ser dura. Pode ser desconfortável. Mas negá-la em nome de utopias afetivas é um caminho seguro rumo ao obscurantismo. Quando o preço da liberdade se torna a submissão ao consenso ideológico do momento, é sinal de que já estamos no meio da tempestade — só falta o trovão final.






