Artigo & Opinião

O País das Verdades Convenientes

Platão imaginou homens presos em uma caverna, observando sombras projetadas na parede e tomando aquelas imagens como a própria realidade. Mais de dois mil anos depois, George Orwell imaginou uma sociedade em que a realidade poderia ser permanentemente reorganizada pelo poder, até que verdade, mentira e conveniência política se tornassem praticamente indistinguíveis. Talvez nenhum dos dois imaginasse que, em algum momento, conseguiríamos reunir as duas ideias em um mesmo ambiente, acrescentar conexão à internet, redes sociais, grupos de mensagens e milhões de especialistas instantâneos. O Brasil, entretanto, parece ter realizado esse experimento com algum sucesso. Colocamos Wi-Fi na caverna de Platão e distribuímos um pequeno Ministério da Verdade para cada cidadão.

Hoje, basta abrir o celular pela manhã para descobrir, em poucos minutos, quem destruiu o país, quem pretende salvá-lo, quem roubou, quem mente, quem ameaça a democracia, quem ameaça a liberdade e, naturalmente, qual deveria ser a política econômica brasileira para as próximas décadas. A peculiaridade é que cada pessoa recebe uma realidade ligeiramente diferente. O algoritmo, sempre solícito, identifica rapidamente aquilo em que acreditamos e passa a nos apresentar novas evidências de que sempre estivemos certos. Depois de algum tempo, já não conhecemos apenas os fatos; conhecemos também as verdadeiras intenções de quem discorda deles. Platão provavelmente reconheceria a caverna. Orwell talvez ficasse impressionado com o fato de que não foi necessário construir um Ministério da Verdade: conseguimos terceirizar o serviço para a própria população.

Essa talvez seja uma das características mais curiosas do debate público brasileiro. Quando o adversário muda de opinião, chamamos de hipocrisia; quando alguém do nosso campo faz exatamente o mesmo, chamamos de amadurecimento. Quando o outro governo aumenta despesas, descobrimos imediatamente os riscos da irresponsabilidade fiscal; quando o gasto beneficia aquilo que consideramos importante, ele passa a ser investimento. Quando determinado setor recebe um benefício, é privilégio; quando o benefício chega ao nosso setor, transforma-se em política pública necessária. Defendemos a liberdade com enorme convicção, principalmente quando se trata da liberdade de dizer aquilo com que concordamos, e defendemos a igualdade perante a lei até encontrarmos uma característica suficientemente particular para justificar uma exceção razoável. Não parece haver exatamente uma ausência de princípios. Pelo contrário. Temos muitos princípios, apenas desenvolvemos a extraordinária capacidade de ajustá-los às circunstâncias.

Orwell já havia explorado essa contradição de maneira ainda mais direta em A Revolução dos Bichos. Na fazenda, a promessa inicial de igualdade vai sendo lentamente reinterpretada à medida que alguns animais descobrem que governar também significa possuir o poder de explicar por que determinadas exceções são necessárias. O interessante é que os princípios não desaparecem de uma vez; eles são ajustados, reinterpretados e adaptados até que aquilo que antes seria considerado privilégio passe a ser apresentado como condição indispensável para o funcionamento da própria ordem. Talvez seja justamente aí que a alegoria se aproxime tanto da realidade brasileira: somos uma sociedade profundamente contrária a privilégios, desde que ainda não tenhamos encontrado uma justificativa técnica, jurídica, econômica ou social suficientemente convincente para o nosso. A regra continua universal, evidentemente; apenas algumas circunstâncias particulares exigem tratamento diferenciado. Orwell transformou essa lógica em uma fazenda. Nós preferimos chamá-la de exceção devidamente fundamentada.

É nesse ponto que Platão volta a ser desconfortavelmente atual. Em A República, uma de suas grandes preocupações era descobrir quem deveria governar. Sua resposta passava pelos filósofos, homens preparados para compreender aquilo que seria melhor para a coletividade. A proposta continua sedutora porque praticamente todos nós desejamos ser governados pelos sábios. A dificuldade começa no momento de escolhê-los. Por uma coincidência impressionante, os sábios quase sempre pensam como nós, defendem aquilo que defendemos e chegam às conclusões que já considerávamos corretas antes mesmo de ouvi-los. Quando alguém igualmente instruído chega à conclusão oposta, sua sabedoria torna-se imediatamente questionável. Talvez por isso grande parte da disputa política não seja exatamente sobre reduzir ou limitar o poder, mas sobre decidir quem poderá exercê-lo. O poder parece sempre excessivo nas mãos dos adversários e surpreendentemente necessário quando acreditamos que as pessoas certas chegaram ao comando.

Orwell compreenderia perfeitamente esse mecanismo. O perigo que atravessa 1984 não está somente na existência de um governante autoritário, mas na capacidade de uma estrutura de poder transformar contradições em normalidade. É nesse sentido que a pergunta institucional mais importante talvez não seja se confiamos em determinada pessoa, partido, autoridade ou instituição. A pergunta deveria ser mais incômoda: aceitaríamos que nosso pior adversário possuísse exatamente o mesmo poder? Se a resposta for negativa, talvez o problema não esteja somente no adversário, mas na quantidade de poder que consideramos aceitável quando imaginamos que ele será utilizado por aqueles de quem gostamos. Instituições maduras não podem depender da esperança de que homens virtuosos estejam permanentemente no comando, porque a história demonstra com certa insistência que eles eventualmente não estarão.

Talvez a realidade tenha decidido oferecer, justamente agora, uma ilustração conveniente dessa discussão. Ontem, 15 de setembro de 2026, o Supremo Tribunal Federal reuniu-se em sessão extraordinária para tratar das controvérsias surgidas no caso Banco Master, em processos que passaram a envolver questionamentos relacionados aos próprios ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça. Antes mesmo de alcançar o mérito principal, porém, o Tribunal precisou discutir quem deveria julgar o quê, se os casos deveriam ser analisados juntos ou separadamente e quais ministros poderiam participar de cada decisão; ao final, um pedido de vista suspendeu a análise, com placar provisório de quatro votos a três pela separação dos processos. Para uma República que procura permanentemente seus guardiões, a cena é quase platônica: os responsáveis por interpretar as regras precisam primeiro interpretar as regras que disciplinam a atuação dos próprios intérpretes. E, para Orwell, talvez houvesse aí uma ironia adicional: em uma sociedade obcecada por descobrir quem possui autoridade para definir a verdade, às vezes a discussão mais difícil não é sobre qual é a verdade, mas sobre quem possui competência para declará-la.

Existe, porém, um personagem que costuma desaparecer quando discutimos os problemas brasileiros: o próprio brasileiro. É sempre confortável imaginar que nossos males estão concentrados em algum gabinete distante de Brasília. De tempos em tempos, surge a certeza de que o país finalmente prosperará se determinado político desaparecer, se outro vencer, se um partido perder, se uma autoridade for substituída ou se uma nova lei for aprovada. O curioso é que os personagens mudam, as eleições passam, governos começam e terminam, mas muitos dos nossos problemas continuam apresentando uma impressionante resistência à alternância de poder. Talvez isso aconteça porque algumas características que criticamos no Estado sejam apenas versões ampliadas daquilo que toleramos em nosso cotidiano. Queremos regras rígidas para os outros e exceções perfeitamente justificáveis para nós; reclamamos da burocracia, mas pedimos uma nova regulamentação quando ela dificulta a vida de alguém que nos incomoda; criticamos incentivos e benefícios até descobrirmos algum ao qual temos direito; defendemos a concorrência, desde que nossos concorrentes não possuam vantagens que consideramos injustas.

O mesmo ocorre com nossa curiosa relação com o Estado. O brasileiro reclama que ele interfere demais, mas frequentemente exige que intervenha imediatamente quando surge um problema particular. O empresário critica a burocracia, mas pode considerar bastante conveniente uma norma que dificulte a entrada de um concorrente. O cidadão condena os gastos públicos de maneira abstrata, mas raramente considera supérflua a despesa que beneficia sua cidade, sua categoria ou sua atividade. O político promete reduzir privilégios, normalmente começando pelos privilégios dos outros. E assim construímos uma máquina em que praticamente todos reclamam do tamanho do Estado enquanto apresentam novas razões pelas quais ele deveria fazer apenas mais uma coisa. Talvez a grande genialidade brasileira não tenha sido criar um Estado complexo, mas transformar essa complexidade em método e, posteriormente, criar novas estruturas destinadas a simplificar as estruturas criadas anteriormente. Quando a simplificação também fica complicada, sempre existe a possibilidade de formar um grupo de trabalho.

A ironia é que tudo isso acontece enquanto continuamos procurando soluções essencialmente pessoais para problemas que são, em grande parte, institucionais. Esperamos encontrar o governante ideal de Platão, ao mesmo tempo em que ignoramos a advertência de Orwell sobre aquilo que ocorre quando concedemos poder demais a qualquer governante que se considere ideal. Talvez essa seja uma das grandes contradições de nossa época: desconfiamos profundamente da política, mas depositamos nela expectativas cada vez maiores. Esperamos que governos resolvam educação, saúde, segurança, emprego, renda, moradia, desigualdade, crescimento econômico, aposentadoria, infraestrutura e praticamente todos os conflitos relevantes da sociedade, mas nos surpreendemos quando o poder necessário para cumprir tantas expectativas cresce junto com elas. Queremos um Estado suficientemente poderoso para resolver nossos problemas e, ao mesmo tempo, suficientemente limitado para não nos incomodar. É uma combinação intelectualmente atraente e administrativamente impossível.

Talvez a caverna contemporânea de Platão não seja, portanto, de esquerda nem de direita. A verdadeira caverna é acreditar que somente o outro lado está preso nela. Nada é mais confortável do que imaginar que nossos adversários são manipulados enquanto nós enxergamos a realidade como ela verdadeiramente é. Nada é mais orwelliano do que perceber as contradições do outro e encontrar explicações sofisticadas para as nossas. E nada é mais brasileiro do que observar milhões de pessoas absolutamente convencidas de que sabem como administrar um país continental, reformar seu sistema tributário, reorganizar suas instituições, conduzir sua política econômica e resolver problemas acumulados durante décadas, mas que provavelmente encontrariam dificuldades consideráveis para aprovar, por unanimidade, a mudança da lixeira do condomínio.

Platão acreditava que sair da caverna seria doloroso porque a luz inicialmente incomodaria quem passou a vida observando sombras. Talvez continue sendo assim. Sair da nossa caverna política exigiria admitir que nossos adversários podem estar errados sem que isso nos torne automaticamente certos, que os governantes de quem gostamos também precisam de limites e que nenhuma narrativa possui o monopólio permanente da verdade. Exigiria ainda abandonar a confortável esperança de encontrar homens perfeitos para administrar poderes imperfeitos. Talvez essa seja a lição que surge quando colocamos A República e 1984 diante do Brasil contemporâneo: Platão procurava os homens certos para governar; Orwell nos ensinou por que deveríamos desconfiar de qualquer um que acreditasse tê-los encontrado. Entre os dois, talvez reste uma conclusão menos grandiosa, mas muito mais útil: não precisamos de governantes perfeitos, e sim de instituições capazes de continuar funcionando quando, inevitavelmente, eles não aparecerem.

Lucas Barboza

Economista pela Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), com formação também em Logística e História pela UNOPAR. Especialista em Gestão de Projetos, Consultoria Empresarial e Ensino de Matemática, atua na intersecção entre educação, estratégia e desenvolvimento organizacional.

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