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Por que os preços sobem continuamente no Brasil? A resposta que quase nunca aparece

Quem viveu o início do Plano Real se lembra claramente de como os preços eram baixos quando comparados aos de hoje. Almoçar fora custava poucos reais, abastecer o carro não exigia planejamento e itens básicos do supermercado não pressionavam o orçamento doméstico. Passadas pouco mais de três décadas, o cenário é radicalmente diferente: tudo ficou mais caro, e não se trata de uma percepção subjetiva, mas de um fato econômico mensurável. A questão central, portanto, não é se os preços subiram, mas por que eles sobem de forma contínua no Brasil, inclusive em períodos de crescimento baixo, recessão ou juros elevados.

Ao longo dos anos, várias explicações ganharam espaço no debate público. Empresários seriam gananciosos, o câmbio estaria descontrolado, os juros elevados pressionariam os custos, o déficit público geraria inflação, ou ainda as expectativas fariam os preços subirem por antecipação. Todas essas narrativas podem até ajudar a explicar movimentos pontuais, mas falham completamente quando confrontadas com um fenômeno persistente e generalizado: a elevação contínua dos preços ao longo do tempo, sem colapso do consumo. Se os preços sobem de forma prolongada e, ainda assim, a demanda se mantém ou cresce, é porque a renda monetária disponível da população também aumentou. Não há outra conclusão economicamente coerente.

Esse ponto é crucial. Desde a criação do real, houve uma expansão expressiva da oferta de bens e serviços no país. Há mais restaurantes, mais produtos, mais marcas, mais tecnologia e maior capacidade produtiva. Em condições normais, esse aumento da oferta deveria pressionar preços para baixo. No entanto, ocorreu exatamente o contrário. Os preços subiram mesmo com mais oferta, e subiram sem destruir a demanda. Isso só é possível porque a quantidade de dinheiro disponível para consumo cresceu ainda mais rápido do que a produção. Quando há mais dinheiro disputando bens e serviços, o ajuste inevitável ocorre nos preços.

Toda transação econômica envolve dinheiro, seja à vista ou a prazo. Quanto maior a quantidade de dinheiro em circulação, maior a capacidade de gasto de famílias, empresas e do próprio Estado. Se essa quantidade cresce de forma contínua, o valor de cada unidade monetária se reduz. A moeda perde poder de compra, e os preços sobem como consequência direta desse processo. Não se trata de um juízo moral, mas de uma relação causal básica. Se a quantidade de dinheiro fosse fixa ao longo do tempo, aumentos generalizados e contínuos de preços seriam impossíveis. Um setor até poderia elevar seus preços, mas outros seriam forçados a reduzir, sob pena de não vender nada. A inflação generalizada só existe porque o dinheiro não é escasso.

No Brasil, a expansão monetária ocorre de maneira institucionalizada. O Banco Central cria a base monetária e, por meio do sistema bancário, esse dinheiro é multiplicado na forma de crédito. Empréstimos para consumo, financiamento de empresas e endividamento do governo injetam dinheiro novo na economia. Esse dinheiro entra no circuito de gastos e passa a pressionar os preços de forma difusa e cumulativa. É por isso que os preços não sobem todos ao mesmo tempo nem na mesma intensidade, mas tendem a subir no agregado ao longo do tempo.

Aqui reside um erro conceitual recorrente no debate público: tratar inflação como sinônimo de aumento de preços. Inflação, corretamente definida, é o aumento da quantidade de dinheiro na economia. O aumento de preços é apenas o efeito visível desse processo. Confundir causa e consequência leva a diagnósticos equivocados e a políticas ineficientes, como controle de preços, congelamentos ou a busca por culpados no setor produtivo. Essas medidas não atacam a raiz do problema e, historicamente, produziram escassez, distorções e perda de bem-estar.

Quando há contração monetária, o movimento se inverte. O crédito desacelera, o dinheiro disponível para consumo diminui e os preços perdem força, mesmo que empresários tentem reajustá-los. Sem dinheiro suficiente em circulação, não há como sustentar aumentos contínuos de preços. Expectativas, déficits ou narrativas heterodoxas simplesmente não se sustentam diante de uma restrição monetária efetiva. No fim das contas, é a quantidade de dinheiro que comanda o processo.

O impacto social desse mecanismo é profundo. A inflação monetária corrói silenciosamente o poder de compra, especialmente das camadas mais pobres, que mantêm recursos em dinheiro ou em aplicações de baixa proteção contra a perda de valor. Trata-se de um imposto invisível, regressivo e persistente, que transfere renda de quem recebe o dinheiro por último para quem o acessa primeiro.

Portanto, quando se compara o custo de vida atual com o de décadas atrás, a explicação não está em teorias exóticas, nem em fatores morais ou conjunturais. Está no aumento expressivo e contínuo da oferta monetária ao longo do tempo. Preços sobem porque há mais dinheiro circulando. Sempre foi assim, e continuará sendo enquanto essa lógica for ignorada no debate econômico brasileiro.

Lucas Barboza

Economista pela Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), com formação também em Logística e História pela UNOPAR. Especialista em Gestão de Projetos, Consultoria Empresarial e Ensino de Matemática, atua na intersecção entre educação, estratégia e desenvolvimento organizacional.

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