
Quando o voto vale mais que o respeito
Apesar de eu ser católico apostólico romano e de direita, o que vejo neste 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, me entristece e me revolta. A Mãe de Deus está sendo arrastada para uma disputa em que sobra propaganda e falta reverência. Entre montagens, discursos e publicações, há atitudes de uns e de outros que me parecem mais próximas da blasfêmia do que da devoção. O calendário anuncia uma celebração religiosa; as redes sociais entregam um comício.
Sou de direita e não apoio o uso de símbolos sagrados para fins eleitorais. Inclusive quando isso favorece alguém em quem eu votaria. Não terceirizei minha consciência a um partido e não entreguei minha fé a uma assessoria de campanha. Minha identificação política não me obriga a aplaudir oportunismo embrulhado em linguagem religiosa.
É impressionante como a devoção de certas figuras públicas ganha intensidade quando encontra uma câmera. O enquadramento fica perfeito, a legenda vem cuidadosamente preparada e Nossa Senhora aparece cercada de intenções que pouco têm a ver com oração. Não conheço a consciência de quem posa para a fotografia. Conheço, porém, a diferença entre manifestar a própria fé e explorar a fé dos outros.
Essa diferença tem fundamento na Igreja. O cânon 1186 do Código de Direito Canônico recomenda a veneração filial à Virgem Maria para fomentar a santificação do povo de Deus. A finalidade é espiritual. Quando sua imagem é utilizada para constranger eleitores, sugerir uma preferência divina ou alimentar hostilidade contra adversários, essa finalidade é subordinada à propaganda. A campanha pode achar conveniente. O católico deveria achar preocupante.
O Catecismo, no parágrafo 2618, apresenta Maria intercedendo junto ao Filho nas bodas de Caná. Na catequese de 24 de março de 2021, o papa Francisco recordou a representação de Maria como aquela que aponta o caminho para Jesus e reafirmou Cristo como único Redentor. É para o Filho que ela conduz os fiéis. A distância entre esse ensinamento e uma montagem eleitoral deveria dispensar explicações. Mas aparentemente precisamos explicar até isso.
O problema fica ainda mais indigesto quando o respeito ao sagrado passa a funcionar por conveniência. Uma provocação recebe o nome de liberdade artística quando agrada ao próprio grupo. Outra vira ofensa intolerável quando pode desgastar o adversário. O símbolo é o mesmo; o cálculo político muda. Há quem trate a sensibilidade religiosa como um interruptor: liga quando rende indignação, desliga quando atrapalha a narrativa.
A memória ajuda a evitar esse espetáculo de amnésia seletiva. Em 2015, na Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, houve uma encenação de crucificação. A intenção declarada era representar o sofrimento das pessoas trans. Essa justificativa deve ser registrada, mas não obriga um cristão a aprovar a utilização da cruz como recurso de protesto. É possível defender a dignidade de uma pessoa e considerar inadequada sua manifestação. O respeito não exige silêncio.
Em 2013, na Marcha das Vadias, no Rio de Janeiro, foram registrados gestos obscenos com cruzes e a quebra de imagens sacras. A organização lamentou a destruição e afirmou que a performance não havia sido programada por ela. Os responsáveis por esses atos não representam automaticamente todos os participantes. Mas os episódios tampouco desaparecem porque se tornaram inconvenientes para uma discussão posterior.
Quem relativizou provocações desse tipo deveria examinar os próprios critérios antes de vestir a roupa de defensor fervoroso do catolicismo. A pergunta é simples e merece uma resposta honesta: o respeito continuaria existindo se não houvesse voto a conquistar? A indignação permaneceria se o responsável fosse um aliado? Quem precisa consultar a identidade partidária do autor antes de decidir se houve desrespeito já revelou o tamanho de sua coerência.
Também há ensinamentos que uma fotografia com Nossa Senhora não resolve. Pio XI condenou o comunismo ateu na encíclica Divini Redemptoris. O parágrafo 2425 do Catecismo reafirma a rejeição às ideologias totalitárias e ateias associadas ao comunismo e ao socialismo. A adesão ao comunismo ateu é incompatível com a fé católica. Isso não transforma toda pessoa de esquerda em comunista, mas impede que a doutrina seja convenientemente esquecida entre uma postagem religiosa e outra.
À direita, o exame de consciência também está atrasado em alguns ambientes. Nenhum candidato recebe autorização para mentir, manipular ou explorar símbolos religiosos porque se apresenta como conservador. Um terço na mão não confere infalibilidade a ninguém. Se a defesa da fé exige fechar os olhos para o comportamento do próprio grupo, estamos defendendo o grupo e usando a fé como argumento.
Minha tristeza alcança os católicos que participam dessa engrenagem. Compartilham montagens sem verificar, confundem agressividade com coragem e tratam qualquer crítica ao seu candidato como ataque à religião. Aos poucos, a devoção passa a obedecer às necessidades da campanha. O fiel acredita estar protegendo o sagrado enquanto oferece sua credibilidade a quem deseja explorá-lo.
Quando a imagem da Mãe de Deus é usada para debochar, manipular ou conferir aparência divina a uma preferência eleitoral, vejo uma irreverência que se aproxima da blasfêmia. Essa é minha avaliação como católico. Não preciso conhecer o interior de cada pessoa para recusar o conteúdo que ela publica. Tampouco preciso abandonar minha posição política para cobrar respeito de quem diz representá-la.
Neste 12 de outubro, Nossa Senhora merece ser honrada com oração, caridade e fidelidade a Cristo. Quem deseja homenageá-la pode começar deixando de colocá-la a serviço da própria conveniência. E quem sente necessidade de explorar sua imagem para convencer o eleitor talvez devesse investir mais em argumentos.
Nossa Senhora não precisa de marqueteiro. Certas campanhas é que precisam da credibilidade que ainda não conseguiram conquistar por conta própria.

